Psicologia pela internet: sobre as regras no Brasil

O tratamento psicológico pela internet, não tem pleno reconhecimento do Conselho Federal de Psicologia no Brasil. No momento o CFP, órgão a que no Brasil cabe legalmente regular as atividades profissionais dos psicólogos em todo o território nacional, não está  seguro da validade científica dele. Por eu acreditar na ciência, julgo-me no dever de ajudar, de algum modo, a que se esclareçam os questionamentos sobre o assunto, e se aprimorem as bases científicas da utilização dos novos recursos tecnológicos em atividades de psicoterapia.

Há vários anos, a prática da psicologia clínica levou-me pela primeira vez a uma situação em que me deparei com o problema epistemologicamente limítrofe, e por isso institucionalmente controverso, a cujo exame voto a minha pesquisa de doutorado. Impunham-me as circunstâncias a necessidade de assumir uma posição a respeito, no caso de uma paciente minha. A decisão que tomei beneficiou-a, como eu conjeturara, e foi o início de uma série de experiências clínicas que me alargaram os horizontes de psicoterapeuta, oferecendo-me subsídios com que posso hoje tentar contribuir ao debate sobre as novas fronteiras do atendimento psicológico.

Em 2009 eu tratava a tal paciente, quando a agraciaram com uma bolsa para estudar em universidade do exterior, num curso presencial que ela, com razão, se rejubilou de haver conquistado, e que duraria por dois anos inteiros. Embora como psicóloga me aprouvesse testemunhar-lhe esse importante êxito, não se me afigurava recomendável, no entanto, cessar a psicoterapia por tão largo espaço de tempo ou, o que seria pior, encerrá-la de vez, porque ainda a paciente não superara as grandes dificuldades para as quais viera buscar a minha ajuda profissional.

Deste modo, propus-lhe que, tão logo ela conseguisse instalar-se no estrangeiro, nós déssemos continuação ao tratamento, servindo-nos do recurso da videoconferência, o qual, já então aprimorado pela internet de banda larga, nos possibilitaria realizar facilmente as sessões terapêuticas, mesmo estando cada uma de nós em um país diferente. Aceita a proposta, combinamos o dia, o horário, o valor e a forma de pagamento das consultas, e a terapia continuou, sem interrupção, pelos dois anos do curso. Ao regressar a paciente ao Brasil, em 2011, retomamos a terapia presencial.

O tratamento psicológico à distância não conta ainda com o pleno reconhecimento do Conselho Federal de Psicologia, órgão a que no Brasil cabe legalmente regular as atividades profissionais dos psicólogos em todo o território nacional. O Conselho, no primeiro artigo da sua Resolução Nº 12/2005, reconhece os “serviços psicológicos realizados por meios tecno-lógicos de comunicação à distância”, desde que sejam “pontuais” e “informativos”, e as orientações psicológicas não excedam a “20 encontros ou contatos virtuais, síncronos ou assíncronos”.  O mesmo artigo até aceita “O Atendimento Eventual de clientes em trânsito e/ou de clientes que momentaneamente se encontrem impossibilitados de comparecer ao atendimento presencial”, segundo foi, durante dois anos, o caso daquela minha paciente. Mas o Artigo 2º preceitua aos psicólogos interessados em ministrar com regularidade esse tipo de atendimento que cadastrem nos seus respectivos conselhos regionais a prestação de tais serviços, para o que também os manda informar, entre outras coisas, “o número máximo de sessões permitidas de acordo com esta resolução”.

No Brasil, muitos psicólogos e pacientes querem que se ponha fim a esse estreito limite máximo de vinte seções para o tratamento à distância, porque se persuadem de que, para a saúde mental das pessoas que não têm como se tratar sem socorrer-se deste, é imprescindível não o interrompa uma regra indiferente à necessidade humana impostergável de tais pessoas. Mesmo assim, a legislação brasileira continua proibindo que o atendimento mediado por computador se dilate por períodos mais longos, a não ser para fins de pesquisa.

Passei a trabalhar intensamente com a psicoterapia por videoconferência, e hoje trato numerosos brasileiros residentes no exterior, que ansiavam por quem os atendesse à distância, comunicando-se com eles em português. São pessoas que moram em países os mais diversos, passam por experiências e situações as mais diferentes, e trazem consigo as mais variadas questões íntimas, porém todos esses brasileiros emocionam-se por estarem vivendo a sua psicoterapia na língua do seu torrão natal. Sentem-se como acolhidos de volta à familiaridade da sua terra na língua que os une ao psicólogo, a espelharem na emoção desse reencontro com o português o verso de Fernando Pessoa: “A minha pátria é a língua portuguesa”.

Assim sendo, também procuro dividir com outros psicólogos a minha experiência profissional, a fim de estimular o debate científico. Por esta razão inscrevi-me na 2ª Mostra de Práticas em Psicologia, evento ocorrido em 2012, na cidade de São Paulo, e tanto me surpreendeu quanto me agradou saber que o Conselho Federal de Psicologia, realizador da mostra, aceitara a minha participação, nada obstante as potenciais controvérsias acerca do trabalho que eu ia expor.

Estando, pois, aberta ao atendimento psicoterápico por videoconferência, e segura da validade científica dele, julgo-me no dever de ajudar, de algum modo, a que se esclareçam os questionamentos sobre o assunto, e se aprimorem as bases científicas da utilização dos novos recursos tecnológicos em atividades de psicoterapia.

***

O autor de este artigo é  Izaura Vale, Psicóloga Perita, Doutorando em Psicologia, membro da equipe do site Therapion.com

Publicado em psicologia pela internet | Deixe o seu comentário

Problemas alimentares e auto estima

Está provado que os problemas alimentares, desde as dificuldades em manter o peso equilibrado até aos distúrbios alimentares estão relacionados com uma baixa auto estima, falta de auto confiança e um sentimento de desamparo.

As perturbações alimentares como a anorexia nervoso, a bulimia ou a obesidade por vezes nascem de relacionamentos problemáticos na família durante a infância, ou mais tarde, aliado ao stress e à angustia que o/a adolescente sofre devido aos padrões “utópicos” impostos pela industria da moda. Muitas vezes ao gerar uma obsessão na procurar do perfeccionismo (metas inatingíveis) gera auto-estima baixa.

Nas crianças de 1ª e 2ª infância, estes problemas alimentares (Recusa alimentar ou obesidade infantil) estão a tornar-se uma constante. Mas sabemos, nós cuidadores, educadores, pais e psicólogos trabalhar para a manutenção de uma auto estima saudável?

Eis aqui alguns elementos que explicam a formação da auto estima:

Na primeira infância o bebe deve percepcionar que é tratado com amor, transmitindo-lhe segurança, as normas e regras comportamentais devem ser transmitidas com firmeza e não com violência; deve-se ensinar a respeitar os outros, reforçando positivamente quando o faz; transmitir à criança que pode sonhar; que lucrará sempre alguma coisa quando se propõe a fazer algo; a criança deve ser chamada à atenção com amor, ao cuidar das doenças ou feridas transmitir sempre uma imagem de normalidade; ajudar a criança a ser independente, dando-lhe autonomia de forma gradual é também um processo importante de transmissão de responsabilidade.

À parte destes elementos, há dois cruciais que ajudar a qualquer ser humano a elevar a auto estima: o sentido de pertença e o sentimento que somos amados.

Todos gostamos e necessitamos de pertencer a uma família, uma comunidade na qual sentimos que nos querem bem e nos respeitam.

Sentir que a criança é amada pela família, cuidando dela, percepcionada pelo seu porto de abrigo com base sólida, e não se desmorona, pelo menos para ela. Por vezes quando não é assim a criança procura o grupo de pares (amigos/as) com quem pode compartilhar os momentos agradáveis. Nestes momentos ao sentir-se bem eleva a auto-estima, pois aumenta o seu auto valor. Caso contrário poderá gerar desequilíbrio emocional e não conseguir organizar-se. Nestes casos a procura de um profissional de saúde da psique é fundamental.

O autor de este artigo é Sónia Moura Sequeira, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta membro da equipe do site Therapion.com

Publicado em Problemas alimentares | Etiquetas , , | Deixe o seu comentário

Psicólogo Online: Dificuldade do relacionamento humano

O autor de este artigo é Cláudia de Faria, Psicóloga Clínica do Brasil, membro da equipe do site Therapion.com. Para saber mais

Relacionar-se é um processo complexo pela fragilidade humana. Para aquele que se submete à experiência contínua do autoconhecimento já não é fácil; dificuldade aumenta para aqueles que não se conhecem e nem querem.

Relacionar-se é um conjunto de atos não programados, advindos da percepção do outro em cada momento e dos sentimentos tanto alheios como próprios. A dificuldade se amplifica pelas expectativas. Criar expectativa é humano, esperar que o outro tenha uma conduta em relação ao que se quer ou ao que se pensa é natural. – A complicação se forma quando a expectativa se torna em exigência, de maneira consciente ou não. É a situação de se esperar que o outro tenha uma reação e quando tal não ocorre, ressentir-se de tal modo que aconteça restrições com o outro, o culpando ou o penalizando; além disso, a frustração pode gerar impossibilidade de se crer em qualquer um e gasto emocional intenso que incapacite de se realizar as tarefas rotineiras de modo adequado e eficaz.

O embate sem escapatória, que todo ser humano irá enfrentar, por sua fragilidade, é a percepção que a expectativa com relação ao outro necessariamente não irá se efetuar; nem a expectativa com a sua própria existência poderá se concretizar por fatores externos à sua vontade. A conduta humana é imprevisível, soma de emoções, vivências diferenciadas, habilidades, inabilidades, aprendizados sociais variados; não há como prever em detalhes. Para a desestrutura não ser incapacitante, perceber que o outro é um ser diferente, com expectativas e desejos variados, que por vezes se assemelham ao do observador, mas nunca idênticos, auxilia. Ajuda também estar-se ciente de suas próprias capacidades, para se fortalecer e se ter energia suficiente para suportar a frustação.

Para que serve se relacionar, então, já que se caracteriza por desgaste e a meta existencial é a felicidade, o bem estar? Poderia, muito bem, cada um, em isolamento, se aprimorar, num exercício árduo de superação. Impossível. O ser humano se constrói pela influência do outro; se percebe pela reação do outro. Há quem até duvide se a individualidade existe de fato, por acreditar que o homem é um ser eminentemente social. Divergências teóricas à parte, constata-se que não há como viver sozinho, somente em ocasiões muito especiais, como a do ermitão, dentre algumas. E frise-se: até nesses casos, houve um período de relacionamento, o isolamento vindo posteriormente.

Relacionar-se é enriquecer-se de experiências, se se está preparado para compreender as dificuldades advindas do relacionamento. É crescer emocional, existencial e espiritualmente, por aceitar as diferenças e s fragilidades observadas tanto do outro quanto a de si mesmo. É poder ser acolhido quando for apropriado por aqueles que estiverem habilitados e desejosos para tal, nos momentos difíceis; é poder acolher, quando puder e quiser. É compartilhar.

Publicado em Dificuldade do relacionamento, psicologo online | Etiquetas | Deixe o seu comentário

Psicologia Online: Viver a vida dos outros – Facebook

Visão da percepção da percepção dos utilizadores do Facebook

O autor de este artigo é Sónia Moura Sequeira, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta membro da equipe do site Therapion.com 

“Prefiro viver a minha vida mesmo sabendo que não sou prefeito , em vez de a viver pretendendo ser algo que não sou” è uma frase que por vezes lemos e faz-nos pensar por uns instantes…”

Isto a propósito dos últimos estudos de duas universidades alemãs em que apuraram dos utilizadores do Facebook:

- Sentimentos como a Inveja, solidão e angústia são sentidos em cada uma por cada três utilizadores, depois de lerem ou virem fotos dos amigos em situações de Lazer, sendo viagens, festas e diversão nas férias, entre outras.

Habitualmente, a inveja é formada a partir do momento em que as qualidades do outro são comparadas, faltando uma avaliação do meu próprio potencial. Estes sentimentos de grande frustração e de inferioridade são gerados pelo facto de a pessoa não ser capaz de realizar acções minimamente úteis para si e para os outros, consolidando-se assim o complexo de inferioridade relativamente è pessoa invejada.

A comparação que fazemos entre nós e o outro pode ser geral – quando comparamos as qualidades psicológicas, morais, sociais ou espirituais – ou específica – quando comparamos as posses materiais, como a casa, o carro, a roupa, o dinheiro ou o porte físico.

Assim, quem sai mais prejudicado da inveja não são os outros, mas quem inveja. Ela é destrutiva, corrói a auto-estima, destrói o crescimento individual, destruindo a sua auto-aceitação porque não produz mudanças favoráveis ao desenvolvimento do invejoso, enquanto pessoa. Contaminado pelo ódio, o invejoso aproveita-se da projecção, tornando más as pessoas que são boas e, por não conseguir obter o que o invejado consegue, faz com que as qualidades do indivíduo invejado fiquem escondidas, por não as querer perceber perante os outros, numa tentativa de raiva e tristeza por tudo o que ele tem e conquista.

Frustrado, e por negar os próprios sentimentos negativos que há dentro de si, o invejoso coloca todo o tipo de sentimentos maus naquele que é o objecto da sua inveja. Posto isto, e sendo o efeito mais devastador da inveja, ela é o factor de bloqueio de qualquer potencial criativo. Daí e a meu ver…os comentários como resposta deste estado de espírito de alguns utilizadores do Facebook com baixa auto-estima e pouca criatividade serem tão rotineiros e caricatos.

***

Publicado em psicologia, psicologia online | Etiquetas , , | Deixe o seu comentário